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Pergunta:

"Bom dia Dr.; eu escrevo por ter um certo receio de ginecologistas. Como assim? Bem, eu não sou mais virgem há algum tempo, mas nunca disse isso para os meus pais por ter medo da reação deles. Então nunca fui a um, por isso gostaria de saber como funciona uma consulta. Obrigada pela atenção!"

Resposta:

Pois é, minha cara, você já percebeu como a primeira experiência de qualquer situação na vida nos gera expectativas e ansiedades? E isso nós sentimos em qualquer fase da vida: desde a infância, no dia em que fomos à escola pela primeira vez, até a idade adulta como, por exemplo, no primeiro dia do novo emprego. Agora, com toda a certeza do mundo dá para dizer que, tanto na primeira relação sexual quanto na estréia no consultório ginecológico, os sentimentos também não são tão diferentes! Aliás, envolvem alguns outros bem mais complexos e muito íntimos, não é?

Inicialmente acho legal nós deixarmos uma coisa bem clara: ter uma vida sexual significa assumi-la integralmente, ou seja, não devemos desvincular o prazer da responsabilidade conosco e com a outra pessoa, até para que possamos desfrutar durante muitos e muitos anos de algo que é tão gostoso, bonito e importante! Ora, para que isso aconteça precisamos providenciar 3 coisas: não engravidar na hora errada, não adquirir doenças sexualmente transmissíveis e fazer exames preventivos periódicos (as mulheres no ginecologista e os homens no clínico geral ou no urologista). Logo, concordo com você de que está na hora de ir a um ginecologista (vou usar no masculino mas, é claro, vale também para a ginecologista).

A escolha de um médico geralmente é feita a partir da indicação por alguém conhecido. Isso é interessante porque é possível ter uma certa referência de como ele pensa, se comporta, e das coisas que valoriza. Aí você talvez já vá para a consulta um pouco mais relaxada. Caso não tenha uma queixa específica, melhor ainda: você pode usar o tempo em que estiver lá para conversar com ele, para se conhecerem, para bater papo! Certamente será uma ótima oportunidade para levar sua lista de dúvidas. Caso você tenha vergonha de abrir uma folha de papel na cara do médico (isso não é feio não, viu?) acho que você pode fazer uma "colinha" e deixar escondida. Não tenha receio de perguntar absolutamente NADA!!!!! Não existe pergunta boba nem pergunta que não deva ser feita! Caso queira levar alguém com você, tudo bem! Se optar por levar seu namorado... melhor ainda!!! Não nos esqueçamos que a vida sexual é feita a dois.

Com o passar do tempo, essa relação de respeito, intimidade e confiança com seu médico irá se aprofundando. Isto fará com que ele a conheça bem e saiba como é que seu corpo tende a manifestar as coisas ruins que sua cabeça está sentindo. Acho importante você saber que nós, seres humanos, geralmente reagimos fisicamente às situações emocionais desagradáveis. Por exemplo: se estamos tristes, deprimidos, tensos, estressados, etc., corremos o risco de ficar doentes! Portanto o papel do médico, no caso o do ginecologista, é acolher a mulher não só tratando seu problema físico, como também tentando ajudá-la a entender como e por quê ela adoeceu, para que isso não volte a acontecer. O ginecologista não deve ser simplesmente um "técnico de manutenção de vagina"!

Agora voltando à sua primeira consulta: uma coisa importante é você sentir como é recebida, se ele olha nos seus olhos, se ele se preocupa realmente em responder suas dúvidas e perceber se você as elucidou. Se tiver uma queixa específica, ele tentará obter detalhes a respeito desse problema, perguntando ainda sobre os antecedentes de doenças (tanto suas quanto de familiares), como é sua menstruação, se tem ou não tem TPM, cólicas, corrimentos, etc. Além disso ele também perguntará sobre seus hábitos e alguns detalhes sobre sua vida sexual (quando foi a primeira transa, se você tem ou não dor na relação, se tem ou não orgasmo e se tem sangramento durante ou após a transa).

Depois de obter todos esses detalhes e mais alguns que achar necessários, ele lhe proporá fazer o exame físico (clínico e ginecológico). Nessa hora é até comum a mulher sentir um certo frio na barriga. Isso é absolutamente normal, não tem relação com a idade e nem a ver com o número de vezes que ela já fez exame ginecológico. Há pessoas que irão senti-lo sempre e outras...nunca! Caso você não queira mesmo fazer exame nesse dia, poderá adiá-lo. Como é provável que ele peça algum exame de laboratório, quando você for levar o resultado poderá fazer seu exame clínico-ginecológico mais tranqüila.

Inicialmente o ginecologista começa com um exame clínico geral, além do exame mamário. Essa será uma ótima oportunidade para você aprender a fazer o auto-exame de mamas, que é fundamental na vida de qualquer mulher. Em seguida será realizado o exame ginecológico completo (menos nas virgens), que consiste na avaliação da área externa (vulva), seguida de um exame interno. Usando uma luva descartável, o médico coloca 1 dedo (ou dois) dentro da vagina e com a outra mão sobre a barriga tenta identificar as estruturas da pelve (útero e ovários), avaliando seus tamanhos, forma, mobilidade, presença ou não de dor, etc. Depois é colocado um aparelhinho de plástico chamado espéculo (conhecido como bico de pato), que serve para observar o interior da vagina analisando-a detalhadamente assim como o colo do útero. Nesse momento poderá ser colhido material para o exame de prevenção do câncer (Papanicolaou). E acabou!

Em linhas gerais é isso o que acontece. Mas olhe, apesar de poder parecer um bicho de 7 cabeças, o exame ginecológico é muito simples e quem já fez sabe disso! Ah, não se esqueça: é importante tentar ficar relaxada durante o exame, ok? Isso não é impossível!

Quanto a seus pais, contar ou não será uma decisão sua. De qualquer forma e independente deles, você deve tomar conta de sua vida sexual por completo. Certamente, como todos nós, você tem capacidade para isso!


Marco Antonio Lenci
11/05/01

As perguntas aqui reunidas foram enviadas ao UOL Teen Sexo por internautas, selecionadas e respondidas pela psicóloga Rosely Sayão e pelos médicos Maurício de Souza Lima, Ricardo Tapajós e Marco Antonio Lenci.

Rosely Sayão é psicóloga e autora de vários livros sobre sexualidade e família, entre eles "Como Educar meu filho?" (ed. Publifolha). Colunista da Folha de S.Paulo e do UOL, responde perguntas dos internautas no quadro "Momento Família", terças, as 16h, ao vivo no UOL News.

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